De Talábriga a Telhadela?

A localização da cidade pré-romana, Talábriga, continua a ser um dos maiores enigmas da historiografia nacional. Sendo aceite pelos historiadores modernos que a mesma se situou junto ao rio Vouga, não necessariamente nas suas margens, mas sim na região de influência do mesmo, particularmente na área que podemos ver no mapa adiante.

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Segundo vários estudos, Talábriga teve que se situar na área a amarelo, dentro do triângulo a vermelho.

  No referido território existem três localizações possíveis amplamente mencionadas, uma sugere a localização da cidade, no monte da Sra. do Socorro, outra no monte de São Gião, na Branca, e a que abrange mais subscritores, situa a referida urbe, no Cabeço do Vouga, junto ao Marnel. Esta posição, conhecida por “lobby” de Águeda, dada a massiva campanha a favor desta alegação, desenvolvida nas últimas décadas, tem sofrido alguma oposição por parte de alguns historiadores. Para uma melhor elucidação sobre o tema, sugerimos a leitura de: “Talábriga – Situação e limites aproximados”.

   Agora vamos ao que nos leva a escrever estas linhas. Telhadela.

  Ultimamente vão surgindo, ainda que timidamente, alegações, que a cidade de Talábriga era em Telhadela, nem mais! Na realidade há fortes motivos para esta hipótese ter uma âncora de apoio como veremos na transcrição (parcial) do artigo: TALÁBRIGA – Um Povo, Uma História, Uma Região, da autoria de Pedro Martins Pereira, e pulicado na revista “Albergue”.

  Em jeito de subsídio e em subscrição deste argumento adicionamos o seguinte:

  • A existência em Telhadela do local denominado “Crasto”, corruptela da palavra Castro.
  • A existência milenar de Telhadela, documentada, sublinhamos.
  • Poderá ser uma justificação de somenos, mas Telhadela estava sulcada por centenas de metros de calçada tipo romana. Porquê a necessidade de tanto arruamento pavimentado, qual a sua origem?
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    Troços de calçada similar ao da imagem, era a marca indelével de Telhadela, centenas de metros chegaram aos nossos dias, até terem sido cobertas com alcatrão.
  • O facto de Telhadela desde sempre ter sido uma localidade de dimensões apreciáveis, tendo como referência as populações circundantes. Qual a justificação para esta realidade?
  • O alicerce de tal consistência, não remontará ao período em que Talábriga é citada?
  • Por último; das dezenas de artigos que lemos, a nenhum historiador ocorreu que Talábriga pode não ter desaparecido, mas sim continuado a existir.
  • Os mais céticos poderão argumentar que não apareceu nenhum vestígio arqueológico. Mas para nós, neste caso, todo se transformou, nada se perdeu, afirmamos.
  • De forma audaz, e é assim que por vezes se areja a história, argumentamos que Telhadela é a continuidade de enigmática Talábriga.

Telhadela, 5 de Fevereiro,

Nuno Jesus

 SEPARADOR

 […]

“Percorrendo o local

O estudo de Félix Alves Pereira, delimita uma faixa de localização de acordo com o “itinerário”. Os relatos de Frei Bernardo de Brito e de Marques Gomes, relativos ao mesmo local, sugerem-nos descer o Monte de São Julião pelo lado nascente. Percorrendo 1300 metros, deparamo-nos com o rio Caima. Para o atravessar, utilizamos a ponte-açude da Talísca. Alguns metros abaixo, na margem esquerda, existe ainda um pegão de uma ponte anterior, cujo nome, ponte da Talísca, foi transferido para a actual. Talísca evoca o primeiro elemento do nome Talábriga.

Atravessando o rio, entramos em Telhadela, subindo o Vale Grande.

Neste vale, existem dois extensos veios de argila vermelha e argila branca, que se estendem ao longo da margem esquerda do rio, desde 2 km a jusante até cerca de 2 km a montante do local onde nos encontramos.

O arqueólogo e engenheiro de minas Luís Albuquerque e Castro, considerou-as argilas de transformação, provenientes da decomposição da anfibolite, provocando o enriquecimento de jazigos de minério de cobre, chumbo e zinco. Daí, ter sido esta uma região de grande actividade mineira (minas de Telhadela – calcopirite, com produção de cobre e zinco, minas do Coval da Mó, do Palhal e do Carvalhal, com produção de galena).

Nesta área, encontram-se alguns antigos fornos de barro, por datar. Um, 2 km a sul e dois a cerca de 200 metros da ponte da Talisca e outros dois na zona norte da povoação de Telhadela.

Ainda a toponímia

No ano de 1100, Telhadela aparece referida como Telliatela.

Na construção do nome desta povoação, admitimos a conjugação de dois elementos com o mesmo significado, repetindo-se o elemento mais antigo após o mais recente, dominante.

Da mesma forma, a construção do nome Conímbriga poderá resultar da conjugação do elemento pré-indo-europeu Kon (elevação rochosa), com o apelativo briga (cabeço fortificado).

Também, Portuscalem poderá ser consequência da conjugação do elemento grego Cale (porto fresco e plano, que entra pela terra dentro, ou do elemento latino Gaya (porto sinuoso), com a sua reposição em latim. Cale significa no norte do país, o cano que da levada dirige a água ao moinho; na ria de Aveiro, dá o nome a numerosos canais. Em Itália existe uma cidade, porto de mar, chamada Gaêta. Várias povoações ribeirinhas da Ilha da Madeira e do arquipélago dos Açores, se chamam Calhetas. Cala, significa portinho, ou enseada ou enseada entranhada na terra, com as margens muito alcantiladas.

Os romanos terão anteposto ao nome que o local já possuía, “Calem”, o mesmo nome na sua língua, “Portus”.

A união de sinónimos de diferentes línguas, parece corrente na toponímia, como consequência da sobreposição de culturas e denominações. […]

No caso de Talábriga, utilizando a mesma construção, teremos tegula (do latim, telha de barro), antes de Tala (telha de barro, pré-romano), resultando na denominação Tegulatal. Conforme foi anotado, em 1100 aparece-nos a povoação de Telhadela referida como telliatela.

Telhadela

A posição de Telhadela, em posição algo elevada e no interior na confluência de dois leitos, o do rio Caima e o leito da ribeira de Telhadela, apresenta características suficientemente defensivas, que lhe possibilitam manter a sua independência, na sua luta contra o invasor.

Prosseguindo no exacto alinhamento entre o monte de São Julião, a ponte da Talisca e Telhadela, continuando o rumo anteriormente traçado, atravessando a ribeira de Telhadela e, percorrendo cerca de 1000 metros, subimos ao Cabeço de Mouros, cume espraiado de uma elevação com vertentes acentuadas, com uma altura total de 200 metros desde a sua base.

No cimo, junto ao marco geodésico, detemo-nos perante o que resta da anta cuja pedra de cobertura foi deslocada, ao que consta, para servir de soleira a uma casa da aldeia de Vilarinho de São Roque, um pouco abaixo, a nascente. A este local relativamente plano dá-se o nome de “Eira dos Mouros”.

Estrabão, referindo-se à destruição de grande parte das cidades lusitanas, escreve: “ O país era muito abundante de frutos, gado e metais preciosos, mas a maior parte destes povos, deixou de aproveitar as riquezas naturais, a fim de se entregar ao latrocínio. Viviam quase sempre em guerra uns com os outros, ou com os povos de além Tejo, seus vizinhos. Tinham nos altos dos montes cidades fortificadas, mas os romanos, vencendo estes povos, puseram termo a este estado de coisas, obrigando os montanheses a descer à planície e transformando grande parte das suas cidades em aldeias, edificando, todavia, melhor outras”.

Podemos admitir a ocupação inicial do cabeço, actualmente Cabeço de Mouros e posterior ocupação das terras que constituem a actual Telhadela. A meio, fica um extenso vale, plano e fértil, onde corre o ribeiro de Telhadela.

Fornos de barro   

Nas páginas anteriores, foram referidos alguns fornos que resistem, não se sabe há quanto tempo.

Próximo à ponte da Talísca, quase soterrados, existem dois fornos. No início do século passado produziram tijolos refractários para as minas do Braçal. Ainda durante o mesmo século, recolheu-se argila refratária deste local, utilizada para o revestimento de fornos cubilotes de produção de ferro fundido.

Dois Kms a sul, num local sempre denominado “forno da telha”, quando há alguns anos se procedia ao abaixamento do nível de um caminho, desabou a parede lateral do aterro, fazendo aparecer a boca de um forno de peças de barro.

Na zona norte de Telhadela, encontravam-se ainda há pouco tempo outros dois fornos, quase totalmente destruídos.

Restos de peças de barro

A área envolvente à ponte de Telhadela, sobre o ribeiro com o mesmo nome, contém soterrados os vestígios mais sugestivos.

Os arados tinham dificuldade em aqui trabalhar, dadas as quantidades de restos de argila cozida envolvidos na terra. Em várias áreas disseminados pequenos pedaços barro, provável consequência do trabalho dos arados ao revolverem o interior dos terrenos.

A exploração mineira

Na várzea, a jusante da mesma ponte, desenterrou-se no princípio do século uma vala ladeada por duas paredes em pedra, contendo no seu interior, ao que consta, grande quantidade de escórias e, inferiormente, um alçapão com grade de ferro. Por agora resta-nos esta descrição, dado o local ter sido novamente soterrado.

Estas escórias terão sido reaproveitadas pelas minas do Braçal.

Nos últimos séculos é conhecida nesta região a exploração de várias minas. As minas do Palhal, Coval da Mó e do Carvalhal, produzindo galena e as minas de Telhadela, com produção de cobre e zinco.

Nas minas do Coval da Mó, foram encontradas lucernas, e o que aparenta ser um chicote, peças existentes no Museu da Delegação do Norte da Direcção Regional de Minas. Nesta exploração, quando se abria uma vala de esgoto descobriram-se antigas minas, apresentando uma diferente textura nas suas paredes. Não se conhece o seu estudo, que poderá indicar explorações mais antigas.

Cal

Cerca de 2,5 Km a norte de Telhadela, encontra-se o Vale da Cal. No século passado, ainda existiam várias dezenas de fornos de cal. Neste momento poderá já não existir qualquer unidade.

A cal, óxido de cálcio, obtém-se reduzindo pelo calor os carbonatos calcários, pedras ou conchas, utilizando fornos. Hidratada ou combinada com água, emprega-se como cimento pu como revestimento.

Argilas refractárias

No relatório sobre a Exposição Universal de Londres de 1862, o engenheiro J. A. C. Neves Cabral, refere que os tijolos refractários dos dois fornos de fundição de galena das inas do Braçal, eram fabricados junto à povoação de Telhadela. Igualmente se admite terem sido utilizados na fundição das minas do Palhal.

O arqueólogo e engenheiro de minas Luís de Albuquerque e Castro, afirma serem provenientes de Telhadela “excelentes argilas feldespáticas. Também admite que, existindo argilas com estas características, seria natural que os romanos as tivessem aproveitado, ou povos pré- romanos aí localizados.

Considerações Finais

As conclusões de Félix Alves Pereira, na interpretação das distâncias referidas no “Itenerário de Antonino”, são aqui reforçadas. Ambos os marcos miliários encontrados em Ul e Mealhada referem XII milhas, a distância entre estas localizações e, respetivamente, Fiães da Feira (Lancóbriga) e Coimbra (Aeminium).

Em função dos métodos da engenharia romana na construção das vias e ainda das características topográficas da região, da toponímia local e do conhecimento da sobreposição de trechos da Estrada Real com a Via Militar Romana, restringe-se esta faixa de localização do acesso a Talábriga à zona envolvente ao Monte de São Gião, sobranceiro à freguesia da Branca, concelho de Albergaria-a-Velha. Quando o itinerário menciona uma cidade, a milha referida não tem de corresponder exatamente á sua localização, podendo representar a confluência de acesso à povoação.

A “História Natural” de Plínio, só vem confirmar a localização desta povoação na área de influência do Rio Vouga.

Frei Bernardo de Brito e Marques Gomes referem, ambos, uma saída para nascente a partir do Monte de São Gião. A nascente, encontramos sobre o Rio Caima, a ponte da Talisca, dando acesso a Telhadela, denominações consequentes ao elemento Tala, prefixo de Talábriga. Tala, com um significado próximo de telha de barro. Neste mesmo local, ao longo de quatro quilómetros, encontramos ricos veios de argila vermelha e branca, possibilitando a criação de artefactos essenciais para estas populações, bem como permitindo o processo de fundição, consequente às explorações mineiras aqui localizadas, pelo menos desde a ocupação romana. Ligeiramente a norte, ainda se mantêm fornos de cal, elemento necessário à purificação dos banhos metalúrgicos.

Ainda a referência a Telhadela, em 1100 como telliatela, corresponderá à consequência do domínio latino (tegula) sobre a origem celta (tala).

Este texto defende de forma original, a localização de Talábriga em Telhadela, pretendendo revolver o legado de um povo heróico e que merece a nossa homenagem.”

 In    TALÁBRIGA – Um Povo, Uma História, Uma Região, da autoria de Pedro Martins Pereira, revista “Albergue” nº 1, Albergaria-a-Velha, pág. 251 a 264

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